Andarilha

Passo a passo eu vou, desbravando a escuridão. Nenhuma luz ilumina o caminho, nenhuma voz abafa a solidão. Não há estrelas ou lua… Não saberia dizer se há um sol. Dia e noite se misturam numa massa disforme na minha percepção. Apenas ando, pé ante pé, sem saber para onde vou.

Meu corpo pesa, as pernas cansam, mas o movimento não cessa. Ando por hábito, inércia, impulso mecânico, automático. À beira da exaustão, ainda assim, não posso parar. Desistir é uma promessa falsa que me encanta qual uma sereia. Como seria bom… Ah, como seria bom…

O descanso vem quando não há mais de onde tirar energia e meus joelhos se jogam ao chão rochoso. A dor é bem-vinda, clareza em meio a névoa que se apossou da minha mente. As barragens se rompem e meus olhos viram rios sem controle, onde me afogo até começar a sonhar.

Meus sonhos não são fantasias felizes. Eles refletem a tempestade em meu peito. São vultos que me julgam por crimes que não cometi e acordar é apenas uma inevitabilidade. Apenas o recomeço do caminhar.

Queria poder afirmar que não sou a única em meio as trevas, mas não sei dizer se há outros como eu… Simplesmente não os reconheço: meus olhos não os vêem, meus ouvidos não os escutam, meus braços neles não esbarram. Há muito desisti da ideia de me comunicar com eles, minha voz não sobreviveu.

É difícil lembrar quando tudo isso começou. Tempo não é algo que existe nesse lugar, mas não conheço nada antes da escuridão. Ando na esperança de conhecer um depois. Se tenho nome, nunca o soube. O futuro é o que me mantém andando.

Não tenho amigos, fechada em meu mundo negro, quem viria até mim? Minha realidade pode ser dura e vazia, mas é minha. É a única realidade que conheço, como posso abrir mão dela?

“Procure aluz no fim do túnel” é uma expressão curiosa. Se não há túnel, a que “fim” se refere? E se não há luz? Deve haver em algum lugar, mas eu não vejo onde encontrá-la, já procurei… Visitei muitos lugares… Ou um só… É difícil saber, quando todos são iguais. Eu devo estar andando em círculos.

Estou perdida, isso é claro para mim. Meu estado natura. Como não me perder se não sei de onde vim nem para onde vou? Ganhei mais arranhões, quedas são comuns. , servem para me mostrar que ainda tenho um chão sob meus pés.

O vento muda e traz até mim o cheiro de canela. Sinto uma dor aguda em meus ouvidos até perceber que alguém soluça perto de mim. Me arrasto em direção ao som, coração acelerado, olhos atentos. Minhas mãos reconhecem um braço pequeno, delicado, tremendo a cada novo soluço. Ao notar minha presença, o pequeno ser emite um brilho fraco, ofuscando minha visão enferrujada.

Sinto os bracinhos me envolverem. O choro interrompido. “Que bom que veio” escuto “Estava esperando você”. A voz é suave, calma. Enquanto me abraça, desaparece, deixando uma pequena chama em meu peito. Apenas enxergo enxugo as lágrimas que escorrem pela minha bochecha.

Agora emito um brilho fraco, tímido. Continuo andando.

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