Um Conto de Fadas

Capítulo 2

O cheiro de cigarro e gasolina trouxe à tona memórias que eu não sabia que tinha, rostos desconhecidos que riam e choravam comigo em algum momento passado. A confusão era uma sensação conhecida e bem-vinda, até.

Lady Di, a menina que eu trouxera comigo, ainda se lembrava de casa e nós seguimos para lá, na esperança de voltarmos para vidas que não nos pertenciam mais. Entre prédios de concreto e carros velozes, eu percebi o quão alienígena nós éramos. Aquele não era mais o nosso mundo.

A escuridão assustou. A casa de Di estava abandonada e vazia, triste e fria. A menina chorou e chamou por sua mãe, eu a abracei e lembrei de um hospital, de gritos, de uma dor alheia à que eu me acostumara a sentir com o Lorde.

Eu a confortei e, depois de arrombar a casa, nós tínhamos um teto sobre nossas cabeças e um canto para passar a noite. Nada poderia nos ter preparado para aquilo, achávamos que tínhamos deixado o Lorde para trás, mas ele veio assombrar nossos sonhos naquela noite. Acordamos gritando. O primeiro pesadelo de muitos.

Demorou quase um mês para encontrarmos outros como nós. Foi como abrir os olhos pela primeira vez, a sociedade dos Perdidos era bela e terrível, cheia de sorrisos e armadilhas. Tão familiar, tão acolhedora!

Eles nos explicaram a nossa realidade, nós entendemos nossas mudanças. Com a ajuda deles, eu lembrei da minha vida perdida: meu namorado, meus pais, minha carreira. E minha filha. Quis encontrá-los imediatamente, segurar meu bebê pela primeira vez. Mas ela não era mais um bebê.

Eu passara quatro anos com o Lorde. Havia sido levada poucas horas após dar a luz e, para todos os efeitos, eu morrera ali, minha vida foi arrancada de mim e virada de ponta-cabeça. Antes, eu era modelo de uma agência londrina; depois, eu modelava para um gigante com feições de serpente. Eu queria minha vida de volta, mas havia alguém vivendo em meu lugar.

A minha cópia vivia naquele mundo há quatro anos. Com meus novos amigos, investigamos a minha vida a fundo. Não foi difícil, ela me tornara uma celebridade, era boa nisso. Ficara rica, famosa e protegida pelos seguranças da agência. De certo modo, ela levava a vida que eu sempre quis, cheia de luxo e mordomias. Eu a invejei por isso.

Mas ela estava sozinha. Minha filha crescia com o pai, mas “eu” nunca a visitava, minha duplicata não se importava com ninguém, perdera contato com meus pais, se divorciara do meu namorado e não parecia registrar a existência do meu bebê. A raiva me cegou e eles tiveram que me trazer de volta a razão para que eu não a atacasse em plena luz do dia com uma multidão de testemunhas.

Minha rotina passou a orbitar em torno da minha filha e da coisa que vivia em meu lugar. Eu estava trabalhando numa loja de conveniência e todo o meu tempo livre era focado em amar minha filha de longe ou aprender sobre a vida que seguira sem mim.

Lady Di me acompanhava sempre que eu ia ver minha filha, fora o motivo que ela encontrou para não perder a realidade de vista. Elas ficaram amigas, era muito fácil para Di, não era tão mais velha, afinal. Nós investigamos a vida de Di também. Os pais dela tinham sido assassinados pela criatura que tomara o seu lugar e “ela” cumpria pena num reformatório.

Nós matamos a coisa que fingia ser Di numa noite, envenenando-a. Ela foi enterrada antes que seu corpo revertesse à matéria-prima usada para criá-la.

E desde então, Di me chama de mãe e, toda noite, ela chora enquanto dorme.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *