Morte e Sonhos

Nunca pedi por uma aventura. Nunca quis encrenca. E, quando eu estava vivo, nunca imaginaria que ia acabar assim. Não morri heroicamente, nem por alguém importante pra mim. Não, eu morri da forma mais banal e sem graça que você pode imaginar: bala perdida.

Eu era um garoto de 18 anos que tinha acabado de se formar no Ensino Médio. Não tinha conseguido passar no vestibular e voltava de mais uma entrevista para estágio. Sabia que não seria escolhido para o trabalho e que teria que tentar em outro lugar no dia seguinte, essa tinha sido a minha rotina na última semana.

Atravessei a rua e mal tinha andando dez metros, ouvi tiros. Só tive tempo de me virar antes que a bala atingisse meu crânio, morri instantaneamente. Não senti dor e não me desesperei. Na verdade, eu não conseguia pensar em nada. Vi meu corpo cair, sem vida. Ouvi os gritos das pessoas que corriam através de mim e a minha volta, mas não conseguia vê-las. Só via a mim mesmo, caído, morto.

— Acabou o tempo. Você já devia ter percebido que morreu. – ouvi uma voz atrás de mim. Virei e vi uma garota de cabelos claros, entre o loiro e o ruivo, olhos castanhos, que usava um vestido laranja. Ela olhava diretamente para mim. E isso me pareceu anormal. Eu já tinha me tocado de que estava morto. E tinha tido tempo para perceber que ninguém parecia me ver. Mas aquela garotinha olhava diretamente nos meus olhos e falava comigo. Quem era ela?

— Me chamo Sarah. – ela disse – Mas você me conhece como Morte. – aquela simples frase me fez rir. A Morte é uma garotinha! Ela não parecia ter nem dez anos ainda

— Na verdade, eu sou tão velha quanto a Vida, mas gosto dessa aparência, 7 anos é uma boa idade. – ver a Morte sorrir me deu calafrios.

— Não tenha medo, vamos para um lugar bom, você vai gostar. Normalmente, os humanos gostam.

— O… O que aconteceu? – foram as palavras que eu consegui cuspir, depois de achar minha voz.

— Assalto de carro, bala perdida, lugar certo, hora certa. Pessoa errada.

— O que você quer dizer? – “Pessoa errada?”

— Vê aquele garoto ali? – ela apontou para um menino agachado num beco, assustado, era da minha altura, provavelmente alguns anos mais novo – Você entrou na frente da bala. Morreu no lugar dele.

— E no que isso influencia? – ótimo, eu estava morto e não deveria estar. A sorte de sempre.

— Em nada. É só interessante perceber que nem a Morte controla a morte. – ela parecia se divertir – Você cheiradiferente.

Aquele comentário não fez sentido para mim, mas ela não disse mais nada, mesmo quando eu perguntei o que ela queria dizer com “cheira diferente”. Ela olhou em volta, analisando a cena. Eu fiz o mesmo. Havia algumas poucas marcas de bala nas paredes próximas, mas eu parecia ter sido a única vítima. Até que ela piscou. E quando eu digo piscou, eu quero dizer a existência dela pareceu sumir por um segundo e depois um homem de cabelos grisalhos estava do meu lado.

— Pronto, podemos ir. – e com isso ela começou a brilhar, ofuscando nossa visão. Fechei os olhos para protegê-los, ou ficaria cego. Depois lembrei que isso não poderia acontecer, pois eu estava morto.

Quando abri os olhos, estava num lugar diferente. Não conseguia ver o chão, se é que havia um, e parecia não existir céu. Tudo que havia naquele estranho lugar era uma névoa prateada. Nem Sarah, nem o homem estavam à vista.

— Olá? – gritei para a névoa. Não sei o que eu esperava que acontecesse, mas certamente não era aquilo. A névoa se afastou de algo que caminhava em minha direção. Senti medo. Mesmo com a névoa se movendo para longe, a visibilidade não melhorou em nada. Até que o ser estava aos meus pés. Era um gato branco. Um gato branco normal. Um gato normal que falou:

— O que você está fazendo aqui, humano?

Por um momento, achei que estava sonhando, que ia acordar na minha cama e perceber que estava atrasado para uma entrevista de estágio. O momento aumentou quando o gato virou uma mulher de cabelos brancos, olhos verdes, mantendo as orelhas felinas e o rabo. Tentei me beliscar. Doeu. Então não era um sonho e almas podem sentir dor.

— Não vai responder? – ela estava irritada – Mal posso esperar para acabar com todos vocês… – mais uma vez, o calafrio. Ela não estava brincando e soara tão casual.

— Onde eu estou?

— Um humano acordado por aqui já é novidade. Um que não sabe onde está é um milagre. O Reino dos Sonhos é o nome desse lugar.

— Então… Estou sonhando?

— Não. Você está acordado.

Do nada, pude sentir a presença de esferas quentes a minha volta e pude ver suas silhuetas. Cada vez mais a hipótese de eu estar dormindo parecia plausível, mesmo que o beliscão tenha doído, mesmo que essa maluca tenha dito que não.

— São sonhos. Em cada uma delas, existe um humano dormindo. Você é o primeiro a chegar aqui acordado.

— O primeiro em quanto tempo?

— O primeiro desde que esse lugar existe. Ou seja, desde que o mundo é mundo. Desde que existem humanóides pensantes em algum ponto do universo.

A personalidade dela mudara. Talvez ela não tivesse percebido, mas a voz dela estava mais suave e menos irritada. Mais doce e gentil.

Eu sentei, tentando colocar minha cabeça em ordem: morri, conheci a Morte, fui parar no mundo dos sonhos, conheci uma louca com dupla personalidade que diz que eu sou o único a chegar até esse lugar acordado. É, enlouqueci. Ou isso, ou eu vou acordar daqui a pouco com a minha mãe gritando.

— Nós não nos apresentamos. – a mulher falou, sentando ao meu lado – Me chamo Harisha, sou a deusa dos sonhos.

— Léo, prazer. – e então eu percebi – D-deusa?!

Ela sorriu. Aquilo me confortou, diferente do sorriso macabro da Morte. E então sua expressão ficou triste, enquanto ela observava os sonhos das pessoas. Quis perguntar o que pode entristecer um deus, mas achei que não era da minha conta. Olhei para as esferas de sonho também. Só podia ver suas silhuetas, então comecei a imaginar com o que a humanidade estaria sonhando… Talvez alguma garota solitária estivesse sonhando que era uma princesa em perigo, algum garoto estaria sonhando em ser o melhor lutador, ou o melhor piloto, ou o melhor jogador de futebol. Uma mulher rica poderia estar sonhando com um dia de compras num shopping cujos preços padrões são exorbitantes para meros mortais, um empresário estaria sonhando com a maneira perfeita de elevar suas taxas de lucros ao infinito…

— Léo! – ouvi a voz de Harisha e percebi o que tinha acontecido. Meus devaneios tinham me envolvido numa daquelas esferas e eu sonhara com tudo que tinha imaginado sem perceber. Tinha sido apenas um observador em todos os cenários, mas ainda sim, tinha sido um sonho. Almas também podem sonhar.

— O que foi?

— Como… Como você fez isso? – ela estava assustada. Eu assustei uma deusa.

— Do que você está falando?

— Só quem está dormindo pode ficar dentro de uma dessas esferas. Essa é uma das leis desse lugar. Eu criei essa lei. Não há excessões… Ou não deveria haver… E os sonhos que você teve eram idênticos às esferas mais próximas. Isso é impossível.

— Eu não fiz nada. – estava ficando assustado. Nunca algo que eu tivesse feito tinha sido fora do normal. Eu nem sabia que eu podia ser fora do normal. Ela então se transformou na gata branca e cheirou o ar. Aquilo me deixou apreensivo. Você cheira diferente. Sarah tinha dito aquilo, como se justificasse a minha morte precoce, e agora Harisha também estava interessada nisso. Comecei a ficar realmente muito nervoso.

— Seu cheiro… – ela disse sem voltar a forma humana e eu sabia como ela terminaria a frase – É diferente. Quase não é humano…

Então ela era de novo uma mulher e cordas saídas da névoa me prendiam. Não senti medo. Não sabia o que viria a seguir nem como aquilo iria me afetar, mas não me pareceu assustador.

— O que você vai fazer com essa alma? – A Morte voltara pra me pegar. Por que eu não estava surpreso?

— Ah, nada demais. Só um teste pra descobrir por que ele tem esse cheiro… Peculiar.

— Você também percebeu? – Sarah parecia surpresa. Aquela frase atraiu a curiosidade de Harisha. Afinal, Sarah parecia uma humana. Uma garotinha de 7 anos num vestido laranja. E ela podia sentir os cheiros dos humanos.

— Você não é humana. – Harisha disse e, eu percebi, sua personalidade mudara. Fiquei com medo. Aquela sombra de maldade nos olhos dela me diziam que se eu continuasse preso por muito mais tempo poderia dar adeus à minha alma.

— Sarah, a Morte, prazer.

— Interessante. Milênios de solidão e sofrimento, de ódio e rancor, de felicidade – a ênfase da palavra felicidade sugeria que ela não estava sendo irônica e eu senti um calafrio percorrer minha espinha – e agora aparecem dois seres para me atazanar a paciência. Leve logo essa alma daqui, ela provavelmente vai causar muitos problemas. – o olhar dela me avaliava com repulsa e Sarah se divertia com a situação. Aquela menina era sádica, só podia. Senti as cordas me soltarem e pousei na ilusão de chão sem grandes problemas.

— Vamos. – Sarah me puxou com alguma força invisível e uma luz me cegou por um instante.

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