Prólogo

Ela corria. Ouvia os passos atrás de si e seu coração acelerado lhe informava que não aguentaria fugir por muito mais tempo. A faculdade devia estar vazia aquela hora da noite, as portas das salas eram trancadas e não havia muito o que fazer naquele corredor. Uma risada cortou o silêncio contemplado pela Lua. Se ela não encontrasse uma saída, logo estaria perdida.

— Você pode fugir, mas não há onde se esconder! – a voz fez sua espinha gelar. Nunca poderia lutar contra ele. Por mais que tentasse. Por mais que precisasse. Nunca poderia levantar um dedo contra aquele homem que já havia lhe proporcionado tantos bons momentos. Os melhores. E que agora corria para lhe arrancar a vida.

Uma carta saiu de seu bolso e voou até sua frente, emitindo um fraco brilho rosado. Estava pedindo para ser usada. A garota concentrou sua energia, fechando os olhos, e, sem dizer palavra, fez surgir um báculo com o emblema da estrela na ponta. Apontou para a carta. Não tinha parado de correr por um momento que fosse, a carta apenas a acompanhara, esperando o momento em que seria ativada.

— Escudo! – ela gritou e o brilho da carta se intensificou até que ela sumiu. No mesmo instante, um raio acertou a recém-criada barreira. Arfando, a menina olhou para trás. Os olhos castanhos de seu perseguidor a encaravam sem brilho. Ele estava tão suado quanto ela, seu cabelo voava conforme seus pés atingiam o chão em sua corrida para alcançar sua presa. Ele preparava outro feitiço.

Mais uma carta se mostrou pronta para entrar em ação. Essa tinha a personalidade determinada e não se daria por vencida:

— Água! – mais uma vez o grito feminino cortou a calma aparente que a noite trazia ao corredor frio e deserto da faculdade de História. Um tornado azul saiu em direção ao algoz de sua mestra, que invocou um leão de fogo para se defender. Com a distração, a maga voltou a correr, procurando uma saída. As janelas iam passando e a paisagem lá fora virou um borrão. Graças a Deus sua melhor amiga não resolvera segui-la nessa missão. Um anjo prateado bateu de encontro a uma vidraça próxima, assustando a menina que parou para observá-lo em sua batalha contra uma réplica negra. No pátio, um felino de tamanho avantajado lutava com sua própria sombra.

O corredor fez uma curva e saiu no refeitório. Correndo, ela entrou pela porta da cozinha e não se importou com o barulho que as panelas de metal fizeram ao atingirem o chão, ele com toda a certeza já estava mais perto do que ela gostaria, podia ouvir seus passos novamente. Sua esperança era encontrar alguma passagem para o lado de fora que não fosse a janela quebrada por onde fora forçada a passar. Com os braços arranhados e sangrando, a garota deixava uma trilha de sangue e por isso sabia que não poderia fugir por muito mais tempo. Teria que enfrentá-lo. Teria que… Ela chorou.

— Cansou? – ela não se virou. As lágrimas simplesmente continuaram rolando por suas bochechas. Ela largou o báculo. Iria desistir. Sabia quais eram as consequências de tal atitude, mas nunca poderia feri-lo. Nunca. Seus companheiros pararam de lutar contra seus próprios adversários para encará-la em descrédito, o que não durou muito pois ambos foram atingidos por golpes poderosos e tiveram que voltar a se concentrar em seus próprios problemas.

— Você é melhor que isso. Vamos, mostre-me do que é capaz! – ele falou, provocando-a. Parecia gostar da tortura que aquela situação representava para ela.

— Eu não vou lutar contra você… Não posso…

— É claro que pode. Quer morrer? Ou… – o garoto desembainhou sua espada e a posicionou de modo a ameaçar o próprio pescoço – Será que você prefere assim?

Ela ouvira o metal da arma arranhar sua bainha protetora. Virou-se e encarou descrédula e desesperada a cena a sua frente. Em nenhum momento as lágrimas pararam de rolar. Seu coração se espremeu no peito e pediu para que ela acordasse daquele pesadelo. Mas ainda não acabara. Abaixou-se para segurar mais uma vez o báculo que era seu desde os dez anos. Ficou em posição de combate, esperando ele baixar a arma e começar a atacá-la, como o fez depois de um sorriso de deboche. Previsível, ela o ouviu murmurar enquanto corria para cortá-la ao meio com um golpe limpo. A espada ricocheteou na barreira que ainda não havia se dissipado.

Confuso, ele baixou a guarda. Ela lhe deu uma rasteira enquanto ativava mais uma carta. Labirinto. A magia engoliu a faculdade com seu brilho. Quando todos puderam enxergar novamente, a garota estava sozinha num beco cercada por paredes rosas. Não havia sinal de seu inimigo. Nem de seus amigos.

— Cerberus! Yue! – ela correu pelos caminhos do labirinto. Seus amigos saberiam que o melhor seria ficarem parados e esperarem por ela. Demorou alguns minutos, indo e vindo pelo labirinto, até encontrá-los.

— Brilhante! – respondeu o felino, Cerberus – Então… Como…? – ele não tinha coragem de terminar a pergunta.

O anjo se limitou a cuidar das feridas de sua mestra, ela sabia que Yue não gostara de sua quase desistência. Demoraria até que ele a respeitasse novamente. A maga olhou para seus amigos com aqueles olhos vermelhos de chorar e balançou negativamente a cabeça e eles entenderam. Ela não tinha vencido, estava fugindo.

— Vamos embora… – e todos caminharam para a saída, seus adversários poderiam ficar presos naquele labirinto enquanto a garota quisesse, pois era só ela pedir e a carta alteraria os caminhos, confundindo seus prisioneiros e distanciando-os da saída. Mas ela não queria isso. Então, assim que chegou em casa, ela cancelou a magia. Viu a carta se materializar em suas mãos e guardou-a junto com as outras. Não teriam mais problemas aquela noite. Deitou em sua cama e fechou os olhos.

***

Sakura acordou assustada. Levou as mãos ao rosto e sentiu as lágrimas. Estava aliviada por ter sido apenas um pesadelo. Mas a dor no peito que ela sentia era real. Aquele sonho fora uma premonição. Os dias calmos estavam para acabar.

Ainda era noite, mas ela precisava falar com alguém. Saiu sorrateiramente de seu quarto para bater na porta de sua melhor amiga. As duas dividiam um apartamento perto do campus da faculdade. Tomoyo estudava Moda e Sakura, História. A movimentação repentina acordou Kero, seu guardião das cartas e amigo, que a seguiu para ouvir a conversa.

Tomoyo apareceu com a cara de sono de quem deseja continuar dormindo. Mas, ao ver o rosto da amiga, ficou imediatamente desperta.

— O que houve?! – ela perguntou enquanto as duas se acomodavam no sofá da sala.

— Um pesadelo… – Sakura começou, enxugando as lágrimas – Kero e Yue estavam lutando contra sombras, réplicas, não sei dizer… E eu… eu… – as palavras simplesmente não saiam. O choro começou novamente, preocupando ainda mais os dois ouvintes. Demorou algum tempo até que ela recuperasse o controle sobre sua voz – Eu estava fugindo… Ele queria me matar… Eu tinha que lutar contra ele… Não consigo… Não quero…

— Quem? – perguntaram os dois em uníssono.

— Syaoran.

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