Primeiro Dia

A chegada dos alunos era sempre tumultuada daquela maneira. Início de semestre, calouros perdidos, a algazarra conhecida e esperada por aqueles que ali estavam acostumados a viver. O começo normal de mais um dia de aula. Claro, haveria o trote e provavelmente nada de aula, mas não é isso que importa. O que importa é o estado mental de nossa protagonista: Sakura estava ansiosa. Não conseguira dormir direito desde o sonho e mal podia esperar para conversar com Syaoran sobre aquilo. Pediria para ele tomar cuidado. Não conseguia acreditar que ele se voltaria contra ela, então a única conclusão possível era vê-lo controlado por um novo inimigo. Ele fazia o curso de Arqueologia, então, em algumas aulas comuns ao curso de História, os dois se encontravam e podiam conversar. Além, é claro, dos momentos em que passeavam pelo campus ou qualquer outro lugar onde pudessem namorar em paz. Naquele momento, ela escaneava os transeuntes procurando pelo rosto que lhe era tão familiar e agradável. Tomoyo a acompanhava, já tinha sido avisada por uma colega que os professores de Moda liberaram os alunos durante a primeira semana para socializarem com seus calouros e montarem os grupos pro projeto do semestre.

— Tem certeza que ele vem pra cá? – Tomoyo perguntou. Já o estavam procurando havia horas, ela estava perdendo a oportunidade de filmar os trotes, ela adorava filmar os trotes.

— Pode ir, Tomo-chan, eu o encontro sozinha. Ele sempre passa aqui no começo dos semestres.

— Me liga pra contar como foi a conversa? Não vou aguentar esperar até a gente se ver no apartamento! – a ansiedade era notável em sua voz, Sakura sabia que ela colecionava aqueles vídeos. Era a sua maneira de substituir a diversão que um dia foi gravar as aventuras da Card Captor, terminadas há muito tempo.

— Pode deixar! – Sakura viu sua amiga correr para longe, com o celular no ouvido chamando o chofer e a câmera na mão, fazendo os ajustes necessários para a sua “missão”.

Agora sozinha, ela começou a pensar em como começaria a conversa. Poderia ir direto ao assunto ou tentaria amenizar a situação para não preocupá-lo… Isso se conseguisse esconder o medo que apertava seu coração e inundava seus olhos. Tirou uma fita do bolso e prendeu os longos cabelos. Resolvera deixar crescer para mudar um pouco o visual, mas ainda não se acostumara com aquele comprimento e sempre prendia quando estava inquieta, nervosa ou alterada de qualquer outra forma.

Um par de braços a envolveu por trás arrancando-lhe de suas reflexões e deixando no ar o susto. Mas foi só sentir o perfume para todas as suas preocupações voarem pelo límpido céu azul, abandonando em seu rosto o sorriso roubado. Sem esperar por consentimento, ele a girou de modo a encará-la e lhe roubou um beijo antes de realmente prestar atenção em sua feição. Rugas de preocupação brotaram na testa de Syaoran.

— Alguma coisa errada?

— Vamos conversar em outro lugar. – ela o arrastou para uma sala vazia e fechou a porta atrás de si, largando a algazarra e o barulho no corredor. Depois, com ele sentado em uma mesa, apoiou-se na parede e encarou o chão. Ainda não sabia como começar.

— Vamos, diga alguma coisa! – o garoto ficava cada vez mais nervoso e preocupado. Sakura não tinha o hábito de se deixar abalar por qualquer coisa, sempre mantinha a alegria e vivacidade no rosto, mesmo nas piores situações e isso o encantava e fazia com que amasse ainda mais aquela doce menina. Porém, naquele momento, ela se deixava abater. O que indicava que algo muito grave havia acontecido – Conte antes que eu enlouqueça de preocupação aqui!

— Eu tive um sonho, Syaoran. Você estava nele. – ela sentia-se como caminhando sobre uma corda bamba, andado sobre uma prancha e descendo a escadaria que levava ao local de execuções, tudo ao mesmo tempo. O nó em sua garganta aumentava conforme ela revivia o pior pesadêlo de sua vida. Sentiu lágrimas se formarem e tentou segurá-las. Com o esforço, sua voz saiu correndo.

— Foi tão ruim assim? – um simples aceno de cabeça foi tudo que ela conseguiu produzir como resposta. Ele se levantou e abraçou-a forte – Sabe que não precisa se preocupar comigo, sei me defender, ninguém fará mal a você comigo por perto e, te promento, não permitirei que ninguém me machuque também. – O efeito que suas palavras tiveram foi o oposto do que ele esperava: ela caiu num choro demorado ao invés do sorriso que Syaoran esperava vê-la produzir.

Ainda soluçando, ela quebrou o abraço para poder encará-lo com os olhos vermelhos e úmidos. Sabia que o estava ferindo pelo simples fato de chorar em sua frente, mas não conseguia evitar. Seu subconsciente estava lhe gritando que em pouco tempo o perderia para sempre.

— V-você lutava contra… V-você t-ten-tentava… – sua voz voltava aos poucos. Juntando suas forças, ela conseguiu produzir a frase que daria início ao caminho para tornar aquele sonho real, pois ela sabia que mudar o futuro é extremamente difícil e, normalmente, é não informando os involvidos que se faz isso – Você tentava me matar… – ela falou num fôlego só e deixou que suas palavras fizessem efeito.

— Sakura, você sabe que eu nunca faria mal a você! – por um segundo, ele pareceu descrédulo. Mas estava acostumado demais com as previsões certeiras da garota para se manter assim por muito tempo – Nunca, Sakura. Eu te amo. Não era eu no seu sonho.

— Era, Syaoran, eu sei que era. – enxugando o rosto, ela se sentiu melhor para continuar – Mas… Eu tenho uma hipótese… Acho que enfrentaremos um novo inimigo… Acho que ele vai controlar você, Syaoran. Tenha cuidado! Por favor, não confie em ninguém suspeito!

Mais uma vez, eles se abraçaram. O garoto sussurrou em seu ouvido que teria cuidado e que tomaria as devidas precauções para que nenhum feiticeiro ou mago se aproximasse de nenhum deles. Prometeu que tudo ficaria bem.

Saíram de mãos dadas. Sakura disse que ia ver se teria alguma aula e depois iria para casa. Syaoran se despediu porque já tinha sido informado por um colega que o professor apareceu e daria não só matéria nova como um trabalho, então se desculpou por não poder acompanhá-la mas prometeu ligar para se encontrarem mais tarde.

 

Os corredores para aquele lado do prédio estavam desertos. Com todos os alunos indo para o trote, a maioria dos professores nem se dava ao trabalho de aparecer por lá e os que iam logo voltavam para suas casas. A primeira semana era dos alunos. Sakura andou até uma janela. Estava pensativa. Queria acreditar que Syaoran conseguiria se proteger. Não se preocupava nem um pouco com si mesma, mas seus entes queridos tinham que ser protegidos a todo o custo e ela lutaria para isso. A preocupação não sumira, ainda tinha o mal presentimento de que alguma coisa ia acontecer. Alguma coisa muito ruim. O vento uivou ao penetrar no apertado espaço do corredor, causando calafrios na menina, que logo imaginou fantasmas e espíritos rondando aqueles lados desertos. Virou-se para sair e deu de cara com um garoto que andava a esmo, caindo sentada a alguns passos de onde acontecera o encontrão.

— Ai! – levantou-se e ficou massageando as costas por alguns minutos antes de encarar o menino. Ele era alto, tinha cabelos loiros e curtos, olhos escuros e misteriosos, o semblante era agradável, mas sua postura passava a impressão de estar procurando alguma coisa ou de constante preocupação. Ele pediu desculpas e sua voz soou clara e deliciosa aos ouvidos da menina, que se sentiu confusa com tudo aquilo.

— Estou perdido e não vi por onde andava, mil perdões. – o sotaque carregado indicava que era estrangeiro. Sakura ainda estava atordoada, atordoada pelo medo, pelo encontrão e por achar aquele garoto agradável sem nem conhecê-lo.

— Para onde estava indo antes de se perder?

— Procurava a minha aula. – e lhe mostrou o horário – Fui transferido esse semestre e ainda estou tentando me acostumar com o fuso horário e com o lugar.

— Bem, hoje não vai ter aula. Todos vão pro trote, então acho que pode ir pra casa. – Sakura sorriu e, estranhamente, ficou triste por isso. Não tinha motivo para não sorrir ao ajudar alguém. Mas aquele garoto mexia com ela e ela não sabia explicar. O coração já pesado pelo pesadêlo e os problemas que ele significava só piorou ao imaginar que a atração por aquele total estranho era injusto com Syaoran e completamente infundada.

— Mas… Qual o seu nome, senhorita? Me chamo Leone Idoni.

— Sou Sakura Kinomoto, prazer.

Ela o guiou até a saída. Conversaram no caminho. Ele explicou que tinha pedido transferência para aprender sobre as lendas japonêsas, pois eram muito atraentes para ele. Ela descobriu que estavam na mesma turma de várias matérias, o que ele agradeceu. Agora teria com quem aprender as regras da faculdade e não teria problemas em se achar pelo lugar.

Se despediram no ponto de ônibus. Sakura pegou aquele que a levaria para o apartamento. Começava a se sentir ansiosa e queria conversar com Tomoyo e Kero sobre o encontro com o aluno novo. Leone pegou seu carro alugado e dirigiu para o endereço onde moraria enquanto estivesse ali.

 

Syaoran mal tinha chegado em casa, ouviu batidas na porta. Estava esperando seu novo “colega de quarto” então apressou-se em atender o visitante.

— Prazer. – disse o garoto parado na soleira da porta, fazendo uma reverência – Sou Leone Idoni. Acredito que você é Syaoran Li. Vim porque acordamos que eu moraria aqui até terminar meu curso na Universidade de Tomoeda.

— Prazer. – respondeu o anfitrião, sondando com seus poderes possíveis segredos de seu novo colega. Sentiu magia, mas bem fraca, vinda do novo inquilino, então desconsiderou-o como a ameaça da qual Sakura o avisara. Ajudou-o a desfazer as malas e a se acomodar no apartamento. Depois foi preparar o almoço.

 

Tomoyo chegou em casa já quase anoitecendo. Entrou tagarelando sobre como foi divertido ver os calouros interpretarem uma lenda parados no sinal da avenida principal. Calou-se ao ver o semblante ansioso de sua amiga. Ela tinha novidades. E não era apenas sobre a conversa com Syaoran.

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