Adeus, Itália

Amanhecia. Ele se levantou com os primeiros raios e foi para a janela. Ficou imaginando como diria a seu pai a sua decisão; não seria fácil. Nunca que o patriarca daquela casa permitiria que seu único herdeiro viajasse sem um bom motivo. E ele não aceitaria o motivo. Nada mais importa agora. Vestiu-se para o café. Aquele não era o dia para irritar seu pai. Não podia se atrasar. Desceu, cumprimentou os criados e foi para o salão de refeições, onde encontrou seu pai acomodado na cabeceira. Alimentou-se antes de mais nada e pediu uma audiência com o próprio pai.

O escritório era decorado com madeira escura, mogno, e as cortinas cor de vinho completavam a atmosfera séria que o anfitrião queria provocar. Seu filho sentiu um calafrio ao cruzar a porta. Não foi o primeiro e nem seria o último. Intimidar era a especialidade do Sr. Idoni.

— Então, o que queria falar comigo?

— Eu vou pro Japão. – era mais fácil ir direto ao assunto. Assim, não perderia a coragem no meio do caminho. E talvez o choque o ajudasse a quebrar qualquer resistência por parte do pai – Parto amanhã. Já decidi, não há nada que você possa fazer.

— Isso é insano! – ele demorou alguns minutos para assimilar toda a informação que lhe foi atirada na cara, como um violento tapa – Não pode simplesmente abandonar tudo o que você construiu aqui! Leone, é do seu futuro que estamos falando! Não vou permitir que você faça isso!

— É tarde para discutir, já comprei a passagem, a transferência para a Universidade de Tomoeda já foi concluída e eu já tenho onde me hospedar. E mais, não pretendo pisar novamente nessa casa. Adeus, pai. – não dar oportunidade para o velho falar era a melhor estratégia. Leone virou as costas e dirigiu-se para a saída. Havia instruído os criados para levar suas malas para o carro assim que acordou e, agora, estava livre para seguir viagem. A porta bateu com um estrondo, abafando o grito de fúria que seu pai deixou escapar. O carro estava parado na vaga mais próxima da saída da garagem. O garoto sentou-se ao volante e ligou o motor. Então percepeu que prendera a respiração e soltou um suspiro. Deixou a garagem para trás dirigindo rápido pela estrada. Só mais uma parada antes do aeroporto.

 

Aquele hospital se tornara uma visão constante havia dez anos. Sua irmã, Rosabela, sofrera um acidente quando tinha sete anos. Era por ela que ele estava viajando. Ele faria tudo voltar ao normal. O quão normal as coisas poderiam ser depois de perder a mãe e ter a irmã em coma por dez anos. Informou a recepcionista quem era e quem estava visitando. A mulher riu e apontou o caminho. Que ele já sabia de cor. E odiava. Era só mais uma maneira que o momento tinha de lhe impor a condição de sua irmã. O quarto ficava no terceiro andar, o que era bem distante, considerando que o elevador estava quebrado e que as escadas ficavam no fim do corredor que era muito longo e ficava mais longo devido às tristes circunstâncias.

Rosabela dormia tranquilamente. Não precisava mais de aparelhos desde que completara um ano naquele estado. Seu corpo estava perfeitamente bem e, conectado ao soro e com constante hemodiálise, sobrevivera dez anos. O problema era a mente. Leone sentou na poltrona que ficava ao lado do leito. Segurou a mão da menina e lhe contou seu plano. Precisava acreditar que ela o ouvia. Desde que perdera a mãe, viver com o sr. Idoni se tornou insuportável. Ele só queria um herdeiro perfeito, enquanto Leone era apenas uma criança. Então nasceu o hábito de visitar a irmã escondido. Conversar com ela sempre fora fácil antes do acidente, eram melhores amigos.

Com o tempo, ele começou a pesquisar formas de curá-la. Tentou usar a própria magia, herdada da família Idoni, mas não funcinou. Então, pesquisou na internet e na biblioteca de casa. Achou duas possibilidades: aumentar seu poder mágico e usar um feitiço guardado num livro antigo ou roubar uma alma. A princípio, ele achou que aumentar seu poder mágico seria mais fácil, achou que treinar seria o suficiente. Durante anos, acreditou piamente que seria suficiente. Quando percebeu que ainda assim não conseguia fazer o feitiço, voltou para a biblioteca para descobrir o porquê.

Acabou por encontrar um documento, um registro histórico, que contava como um ancestral seu roubara a magia de um Reed, outra família de magos muito antiga na Europa. Ali explicava que a magia, quando roubada, não duraria para sempre. Ela continuaria sendo passada hereditariamente, mas a cada geração enfraqueceria até desaparecer. Ao ler tudo isso, Leone se desesperou. Nunca poderia ajudar a irmã sem magia. E roubar estava fora de cogitação, pois isso significava lutar contra magos e isso não era nunca uma boa idéia, especialmente quando não se pode defender

Desesperado, sua última opção seria roubar uma alma. Para isso, sua magia seria suficiente. Durante alguns meses, ele batalhou consigo mesmo, tentando se decidir se era tão frio a ponto de matar alguém. As visitas ao hospital ficaram mais frequentes e a visão de sua irmã deitada lá, sozinha e esquecida pela família decidiu por ele.

Naquela época, qualquer alma teria servido, mas faltou coragem. Então um amigo mencionou uma lenda. Que atraiu a atenção de Leone para um tipo específico de alma: as almas-estrelas. Elas são representadas como mais resistentes e propícias a magia, além de se adaptarem mais facilmente. Era o tipo de alma perfeito. Isso impediria que a alma subjulgasse Rosabela. Assim, ele teria certeza de que seria sua irmã a acordar naquele leito de hospital, e não uma estranha qualquer.

Juntou artefatos que ampliariam seus poderes para rastrear esse tipo raro de alma. Encontrou. Só um problema, a alma estava no Japão. Seria impossível roubá-la estando a quilômetros de distância. Portanto, agendou a viagem e se preparou.

Leone saiu do hospital com determinação renovada, sua irmãzinha dependia dele. Entrou em seu carro e dirigiu para o aeroporto. Logo estaria em Tomoeda, logo teria meios reais para ajudar Rosabela.

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