Dia-a-dia

Planos pro futuro… Eu acho.

Vamos lá, eu tenho conseguido manter um post por mês por algum tempo agora e isso me faz muito feliz, no geral. Certo que eu não tenho um dia fixo pra postar, mas ainda assim, é um progresso.

O que eu queria avisar agora é que as resenhas que eu prometi não apareceram. Mas eu tenho um motivo. Ou dois. São bons motivos. O primeiro é que eu estou a ponto de me formar na faculdade e isso significa monografia. Falta pouco pra terminar, mas ainda é um trabalho que ocupa o meu tempo livro e me impede de investir na leitura dos milhares de livros que eu tenho pegando poeira. O outro motivo é que eu pretendo tentar mestrado. Isso implica estudar o ano inteiro para os processos seletivos que costumam ser em outubro.

Ainda assim, tenho alguns planos aqui pro blog. Troquei o tema e pretendo começar a colocar meus desenhos aqui. Eu costumo publicar no deviantArt mas quero que eles estejam disponíveis aqui também. E as resenhas vão acontecer, só não sei quando. Mas elas virão.

Talvez eu faça mais algum post esse mês. Mas não vou prometer nada.

Até mais.

Contos e Poesias

I am a slave

I am a slave.

The words that pour
out of my hands
are the masters of me
they control

Every aspect of my being
consuming my mind
with with their never-fading flame

I dance to their song
am lost in their maze
wonder in the darkness
of my thoughts
while stories spiral around me.

This words are voices
I hear as I fall asleep
conversations I have

With characters of imagination
They are my power
the only way I know
to be myself

With them, I am free.

warylk

Sozinha

Era difícil saber quando parar. Ela pousou a mão sobre a barriga, sentindo o inchaço e sorriu, melancólica. Sua mente voltou no tempo, quando ele ainda estava lá, quando eles ainda andavam juntos pelos corredores do castelo, rindo. Eram tão jovens… Ethea deixou o saco de areia balançando e sentou-se num dos bancos de madeira. Ainda treinava todos os dias, mas estava ficando mais difícil – conforme a barriga ia crescendo, menos fôlego restava em seus pulmões.

O suor escorreu por sua testa, os cabelos dourados grudavam no pescoço e ela sentiu um movimento em seu útero. Não era a primeira vez, mas o bebê costumava ser quieto. Ela sorriu novamente.

— Não se preocupe, a mamãe está bem. – falou olhando para a pele esticada. Conseguia ver suas veias, complementando o tom esverdeado de sua pele. Outro movimento, como que respondendo. Novamente ela fez carinho sobre a superfície, sentindo a energia que emanava da criança que crescia em seu âmago. O bebê estava bem.

 

Depois de um banho gelado, Ethea deixou o campo de treinamento e voltou a vagar pelas ruas. Fazia três meses desde que ele sumira sem explicação ou vestígio. Nos primeiros dias, ela se sentiu traída, chegando a matar uma parte das plantas no jardim real com seus poderes, mas logo se acalmou. Zymne não o levaria daquela maneira sem motivo, muito menos planejaria o sequestro da princesa só para se divertir. Algo mais estava acontecendo ali, algo grande. E eles a deixaram de fora. Ethea tentou se convencer que ninguém a tinha deixado a par da situação por falta de tempo, então, como se para colocar um ponto final em suas dúvidas, pediu baixa da Guarda Real – a gravidez foi muito útil ao convencer seus superiores de que ela precisava de tranquilidade para criar seu filho de um jeito saudável.

Assim que eles a colocaram na reserva, Ethea saiu pelo mundo, procurando por ele. Procurando por respostas. Tinha conseguido acompanhar uma caravana que saía de Irhullan até Loryeth. Estava na cidade há uma semana, morando numa casa humilde com uma família de mercadores. Ajudava na cozinha do quartel, o que lhe rendia algum dinheiro e o direito de usar as instalações de treinamento. Nunca se sabia o que iria encontrar pelo caminho.

 

Ethea odiava estar grávida num momento tão crucial. Estava entrando no sétimo mês e sua barriga agora estava grande demais para que ela fosse de qualquer utilidade em combate. Viajar também estava se tornando cada vez mais difícil, mas ela ainda não o encontrara. Todo esse tempo e nenhum sinal do trio maravilha. Maldito Zymne e seus portais! Claro que ninguém os veria, eles provavelmente tinham aparecido num lugar remoto e ficado por lá. Ainda faltavam dois meses para o bebê nascer e ela ainda estava longe de qualquer civilização que pudesse acolhê-la. A caravana viajava devagar por terra. A opção mais rápida seria ir pelo rio, mas era também a mais cara e ela não podia se dar ao luxo de gastar muito.

Os Raetjyns atacaram ao amanhecer e Ethea era a única que tinha qualquer chance contra eles. Sabia que não devia entrar numa batalha, mas era questão de vida ou morte para as pessoas que a acompanhavam.

— Façam um círculo em volta da caravana e deem as mãos! – ela gritou, em comando. Sua confiança foi o suficiente para fazer com que as pessoas obedecessem. Imediatamente, ela pode sentir a vida que se acumulava em cada pessoa ali. Assim que uma das criaturas tocou alguém, Ethea sentiu o fluxo começar a correr – o monstro bebia a energia com uma vontade! Usando de toda a sua concentração, Ethea reverteu o fluxo. Foi o suficiente para espantar o Raetjyn.

 

Era noite quando as contrações começaram. A caravana ainda estava distante de qualquer civilização, mas não havia mais tempo. Eles estavam acampados às margens do rio e o céu pipocava de estrelas cintilantes e uma lua grande e brilhante. Sem fazer barulho, ela saiu da tenda e foi cambaleando até a água. Os intervalos diminuíam rápido, ia ser logo.

Não havia sacerdotisas ali para abençoar o nascimento e sua mãe estava a quilômetros de distância, no reino vizinho. Ethea estava sozinha. Seu pé tocou a água gelada e, por um momento, ela se sentiu revigorada. Era como estar em casa, de volta às cachoeiras de sua cidade natal. Sem uma sacerdotisa para controlar a correnteza, Ethea não foi muito rio a dentro, apenas o suficiente para que pudesse deitar no cascalho e deixar que a água molhasse suas costas, mãos e pernas. Fez questão de ficar de frente para o acampamento.

A dor estava mais forte agora e ela não conseguia mais segurar os gritos, todos foram acordados e logo se aproximavam para ver o que acontecia. Uma mulher tentou convencer Ethea a voltar para a tenda, onde era mais seguro. Ela não podia fazer isso, sabia que não conseguia andar e, tão longe de casa, queria que pelo menos parte da tradição fosse honrada – daria a luz no rio.

A mulher ficou ao lado da Lerifd, servindo de apoio e vigia. Quando o bebê nasceu, o choro ecoou pelas árvores e Ethea se deixou cair na água enquanto sua companhia cuidava para que seu filho não se afogasse.

— Meus parabéns, é um menino. – ela ouviu, enquanto fechava os olhos e ouvia o som da água corrente. Ele precisava de um nome… Sua mãe não estava ali para escolher. Ninguém que conhecia, que amava, estava ali para acompanhar aquele momento. Sozinha. Ela não percebeu quando as lágrimas começaram a escorrer.

 

Kior era um dos menores vilarejos de Ehjslet, mas Ethea não estava preocupada com isso. Seu filho estava em seus braços, dormindo. Tinha sido um longo mês desde que ele nascera. A primeira vez que o abraçara, no rio, pode ver o quanto ele era parecido com o pai. Kior seria o seu novo lar. Ethea sabia que sua jornada tinha terminado.

Contos e Poesias

Ficou no Passado

Ela estava ofegante quando parou no batente da casa velha. Olhando em volta, sabia que estava sozinha, sabia que eles não a procurariam ali. Deixou-se cair no chão e ficou se acalmando, respirando, sentindo seu coração desacelerar aos poucos, observando os arredores.

Clara era nova no bairro, ainda não estava acostumada com a disposição das ruas e tinha se afastado mais do que gostaria: não reconhecia nada ali. Naquela pequena estrada de terra, só havia árvores – que a escondiam da visão dos garotos quando a rua fazia uma curva – e a casa velha onde se encontrava. Levantando-se devagar, limpou a poeira e começou a andar pelo perímetro. Janelas quebradas, mofo, plantas daninhas se apossando das paredes. Ela podia sentir o peso dos anos emanando da construção, ouvia o sussurro de acontecimentos há muito esquecidos.

Tentou imaginar como a casa teria sido em seus dias de glória. Talvez tenha sido possuída por uma rica família, conhecida na cidade por dar grandes festas para a alta sociedade. Os carros eram dirigidos por motoristas particulares e as damas usavam suas melhores jóias e os vestidos elegantes e coloridos – costume que se perdeu quando o último herdeiro já não tinha mais interesse em cuidar da velha construção. Abandonada, sozinha… Não, não estava sozinha. Clara podia ouvir os pássaros que fizeram um ninho no sótão, ouvia o murmurinho das folhas que o vento balançava e o ranger da madeira quando a corrente de ar era mais forte. A casa podia ser antiga, anciã, mas ainda estava viva, ainda tinha história.

A menina voltara à porta de entrada que, agora, lhe parecia um convite para continuar seus devaneios. Empurrou de leve a madeira e adentrou no corredor escuro e empoeirado. Os móveis ainda estavam ali, antigos, robustos, testemunhas de uma era que não voltaria mais. Clara vasculhou a casa, sentindo o cheiro do tempo na poeira e na decomposição do lugar. Podia ouvir os ratos sob o piso e os pássaros sobre sua cabeça. Pouco havia de interessante no lugar, toda a cor parecia ter sido levada por seu último habitante, a casa estava nua, vulnerável. Ainda assim, Clara continuou a procurar, sem saber bem o que. Seus amigos já deviam ter desistido do esconde-esconde, mas ela não se importava mais com a brincadeira. Estava vivendo uma aventura que desenrolava apenas em sua própria cabeça. Estava atrás de respostas para perguntas que ainda não formulara, queria ser testemunha daquela pobre construção, seria a prova de sua existência. Não queria deixar que a casa velha se perdesse no passado.

***

Já era noite quando Clara chegou em casa. Sua mãe preparava o jantar e o pai ajudava o irmão pequeno com a lição de casa. A menina sorriu e foi tomar uma ducha.

Antes de dormir, tirou da mochila um diário empoeirado, suvenir da Casa Velha, e pos-se a ler, mergulhando na história antiga de uma amiga recente.

Contos e Poesias

Inspiração

Ela acordou com aqueles olhos a lhe encarar. Um miado, pedido de comida. Ainda zonza de sono, cambaleou até o banheiro, tropeçando em patas que a acompanharam, vigilantes, impacientes. Lavou o rosto e encarou o espelho. Novamente aqueles olhos, juízes. O caminho até a cozinha foi preenchido por garras que tentavam lhe escalar a perna. Ela riu e as pegou no colo. Filhote.

Despejou ração na tigela e se dirigiu à geladeira, iria preparar seu desjejum com os restos da janta. As taças de vinho ainda estavam sobre a mesa, os pratos largados sem jeito na pia. Inconsciente, tocou o pescoço, relembrando momentos que nunca deviam ter sido.

Enquanto comia, deixou a mente vagar, acompanhando o movimento pendular da cauda dele. Era um bom dia, as nuvens de chuva quebravam o calor insuportável dos últimos dias. Esperava que chovesse, para limpar sua consciência. Terminou de comer e puxou o laptop para si, acariciando o bichano que se estabelecera em seu colo.

Estava nas últimas páginas do seu livro quando perdeira a inspiração na noite anterior, o prazo para entrega se aproximava veloz e os personagens se recusavam a cooperar. Foi quando ele apareceu. Seu guardião, sua musa. Passaram a noite juntos: jantar casual e sexo. Ele sempre sabia quando ela precisava de um amigo. Conversaram sobre a história, trocando ideias, avançando a narrativa enquanto assumiam os papéis dos personagens: atores num jogo teatral.

O gato pulou para o chão e ela despertou dos seus devaneios. Passou às próximas horas escrevendo, confiante na direção que tomava com as palavras, construíndo uma bela teia de drama e ação. Sabia que seria um sucesso.

Ele acordou perto do meio-dia e preparou o almoço enquanto ela relia a história que criara e fazia uma edição preliminar antes de enviar a sua agente. O almoço foi como o jantar, casual e inspirador. Ambos tinham sorrisos no rosto quando ele se foi.

O barulho de chave na porta a despertou do programa que assistia na TV. Já escurecera e caia uma chuva leve, acompanhada de um vento frio. Não havia estrelas ou lua no céu. A mulher que entrou carregava malas e vestia um sobretudo. As duas se beijaram e foram para a cozinha, jantar.

– Conseguiu terminar a história?

– Hm-hum. Ele passou aí ontem à noite e me ajudou. Como foi de viagem?

– Bem, mas queria ter estado aqui ontem.

As duas riram.

– Esse não foi meu último livro, haverá outras oportunidades.

Depois do jantar, as duas foram de mãos dadas até o quarto, tirando as alianças e as roupas antes de deitar.