O carro estacionou em frente a uma bela casa branca.
Ele preferia não ter que andar por aqueles corredores novamente. Preferia nunca mais pisar ali. Ficou vários minutos olhando para o céu escuro, tomando coragem para abrir a porta e andar até a entrada de madeira. Ali, espalhadas pelo ar, estavam as memórias dos momentos mais felizes de sua vida. E nas sombras, as mais tristes. Saiu para o frio da manhã e caminhou lentamente pelo jardim bem cuidado. Sua mão parou no ar por um segundo antes da confiança retornar e ela ir de encontro à madeira seca da porta.
Uma empregada atendeu. Sem muita atenção, o mandou entrar e esperar na sala. Ele a segurou pelo braço antes que ela pudesse desaparecer no corredor.
– Não pretendo entrar. Apenas avise que estarei esperando na praia. – e saiu sem esperar resposta.
A areia macia grudou no sapato social que ele não se incomodou em tirar. Simplesmente foi andando e direção às ondas, deixando uma trilha de pegadas para trás.
A praia estava deserta e os primeiros pingos começavam a cair. A água já batia em seu calcanhar. Parou. As lágrimas começaram a se misturar às ondas sem que ele notasse. Sua mente estava distante. Muitos anos distante.
Cabelos castanhos avermelhados ao sol adornados com flores azuis, olhos sorridentes e um vestido branco andavam pelo tapete dourado estendido na areia. Ela era linda. Eles se amavam, tudo estava perfeito. O casamento na praia tinha sido idéia dele, achando que seria romântico se casar no mesmo lugar onde se conheceram, em frente a casa dos pais dela. Dez anos e uma filha depois, aquele casal estava separado e ele não conseguia entender o que fizera de errado.
Voltou a focalizar o mar. A água azul, profunda, o fazia lembrar de como era mergulhar nos olhos dela, aqueles olhos apaixonados de quando namoravam. Eles não existiam mais. Pelo menos, não para ele. Tudo que restava era o vento, o mar e a chuva. Trazendo e levando as lembranças. Impedindo-o de esquecer a dor.
Um grito o tirou de suas reflexões. Percebeu que tinha entrado tanto no mar que a água já batia na cintura. A chuva ficava mais forte, se transformava numa tempestade. Hora de ir embora. O grito soou novamente, mais perto dessa vez. Ainda não conseguia entender o que dizia. Virou-se e, por um breve momento, ele a viu correr para ele como no dia em que a pediu em casamento. Aqueles longos cabelos voando soltos e alegres, o sorriso perfeito. E os olhos.
Então um trovão o trouxe a realidade.
– Papai! – a menina de 5 anos o abraçou forte assim que eles se encontraram na areia. Ele a levantou e a beijou. Ela tinha os mesmos cabelos, os mesmos olhos e a mesma doçura da mãe. E por isso, ele a amava ainda mais. Sua pequena jóia.
Carregando-a no colo, ele voltou para o carro. Deixou-a se secar no banco de trás com uma toalha que a mãe lhe entregou.
– É isso mesmo que você quer? – ele perguntou.
Por um segundo, ela sorriu. Depois confirmou com um aceno de cabeça.
A despedida foi um simples beijo na bochecha.
E ele entrou no carro e dirigiu para longe, levando a filha para passar o fim de semana com ele.
Teria que voltar na segunda.
Fechado