Ponto de Vista
terça-feira 11 de março de 2014 às 11:57 | Arquivado em: Original, Papéis Avulsos

Asas brancas. Olhos dourados como o sol. Aquela porcelana sempre me encarava quando eu descia para almoçar. Era a coruja favorita da mamãe e o papai a guardava como um tesouro. Ninguém nunca tocou nela, estava sempre lá, embaixo da escada, como uma guardiã. Minha irmãzinha tinha chamado-a de Edwiges. Quando a mamãe era viva, ela costumava contar histórias sobre como as corujas eram seres mágicos e inteligentes que protegem a imaginação das crianças. Eu cresci ouvindo essas histórias. Nunca pensei que elas significariam tanto para mim.

À noite, papai nos colocou na cama e apagou a luz. Virei-me para o lado e tentei adormecer. Estava quase pegando no sono, quando senti uma leve bicada em minhas costas. Abri os olhos e voltei ao normal para ver o que estava acontecendo. Tomei um susto. Edwiges estava viva! E me bicava para chamar minha atenção. Sentei na cama e observei. A coruja branca foi em direção à janela e, com a asa, indicou o fecho. Ela queria que eu abrisse, queria voar.

Levantei e fiz o que ela pedia. Edwiges pulou para fora e planou por alguns minutos, feliz por estar livre. Fiquei apenas admirando-a, branca contra a negritude do céu noturno. Depois ela voltou e pousou no meu ombro. Suas garras afiadas não me feriram por mágica. Fiz menção de entrar e fechar a janela, ela me parou com um pio e voltou a pular para a noite, só que dessa vez, me chamando.

– Eu não sei voar. – expliquei, quase rindo, mas ela me olhou como se eu fosse um covarde, ou alguém de outro mundo, parecia perguntar se eu não confiava nela. Engoli em seco. Ela realmente esperava que eu voasse a seu lado. Por um segundo pensei em me beliscar para acordar desse sonho, mas minha mente me parou. E se não fosse sonho?

Algo me dizia que, sonho ou não, eu teria que, no mínimo, pular da janela. Respirei fundo e me lancei ao vazio, de olhos fechados, esperando o fim. Mas ele não veio. Eu realmente estava planando há 2 metros acima do chão!

Divertido, pensei. Fiquei voando a esmo, tentado pegar o jeito da coisa. Edwiges sempre ao meu lado, paciente. Quando demonstrei estar terminado meu pequeno aquecimento, nós dois saímos voando em direção à Lua.

Não pude deixar de sentir que alguém me observava. Às vezes, pelo canto do olho, tinha a impressão de ver alguém voando ao meu lado. Mas eu olhava para Edwiges e ela parecia sorrir, aquilo era tranquilizador.

Depois do que pareceram horas, pousamos numa cratera da Lua. Eu não entendi como a gente tinha chegado lá nem como eu respirava, mas ali estávamos. Edwiges pousou e pareceu esperar. O tempo foi passando… Eventualmente, eu cansei de ficar em pé e sentei no chão. A presença que eu sentira enquanto voava não tinha sumido, só… Não estava mais incomodando. Pareceu para mim que nós ficamos horas ali, sem nada para fazer e sem nada acontecer.

Levantei no susto quando a presença ficou mais intensa. Olhei em volta mas nada tinha mudado.

– Muito bom, Edwiges! – ouvi a voz de uma mulher, atrás de mim. Quando me virei, minha boca se abriu com o susto. De repente, eu estava chorando. Num impulso, corri e abracei a tal mulher.

– Mãe!

– Quanto tempo! – ela respondeu, retribuindo meu abraço e parando de fazer carinho em Edwiges. Depois, ela perguntou sobre mim, sobre papai e a mana. Ficamos horas conversando sobre o que aconteceu no tempo que tinha passado desde que… desde que ela se fora. – É muito bom conversar com você, coração, mas você não quer saber porque está aqui?

Só então eu me toquei que havia um motivo para tudo aquilo. Edwiges não tinha me levado até ali só para que eu revesse a minha mãe, tinha algo mais.

– Eu tenho observado você, através da Edwiges, e eu fiquei preocupada – ela começou – Você tem se fechado do mundo desde a minha morte. Quero que você entenda que o mundo não acabou. Você precisa abrir seu coração para as oportunidades que a vida te mostra. – com um gesto da mão, ela fez aparecer uma “tela” a nossa frente onde imagens começaram a passar. Eu vi a minha turma da escola, depois eu vi aquela pessoa especial para mim. Percebi que eu estava afastando meus amigos. Mamãe também me mostrou outras histórias. Me mostrou a vida de um menino, mostrou como ele tinha perdido os pais, como ele cresceu criado pelos tios que o odiavam, como ele fez amigos na escola e como ele lutou contra o assassino de seus pais, mostrou a magia que tinha nascido no coração de milhares por causa daquele garoto, mostrou a esperança. Mostrou que o mundo não é uma conta matemática que a gente sempre pode prever o resultado e sim uma loucura como tem que ser, porque as pessoas tem sentimentos que expressam de formas diferentes. Com tanta diferença, é impossível se dar bem com todo mundo, mas é bem possível enxergar aqueles que nos aceitam como somos.

– Não deixe que um acontecimento triste tire a luz dos momentos felizes que ainda podem vir. – minha mãe falou, se despedindo e beijando minha testa. Meus olhos fecharam sozinhos e eu senti meu corpo ficar cada vez mais pesado e cair.
Acordei com os olhos cheios de lágrima. E com uma pena branca em cima do cobertor.


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Medo
domingo 16 de fevereiro de 2014 às 18:16 | Arquivado em: Original, Papéis Avulsos

Na batalha, a adrenalina clareia a visão e aguça os ouvidos. O tempo parece desacelerar e nada mais importa a não ser atacar e tentar não morrer. Principalmente tentar não morrer. Eu fora treinada por anos para aquele momento. Anos numa academia aprendendo a lutar. Todas as minhas amigas passaram pelo mesmo processo. Éramos o exército perfeito para aquela crise.

A humanidade sempre esteve perdida. E sempre temeu esse futuro. Nós representávamos a esperança invisível. Nosso pequeno exército era secreto, não podia ser mencionado fora de si mesmo. Aqueles escolhidos para se tornar um de nós eram arrancados de suas famílias aos 5 anos de idade, que é quando o poder normalmente se manifesta. Os pais sempre se desesperam no início. E algumas crianças, depois de iniciado o treinamento, recebem permissão para visitar suas antigas casas durante a noite. Não são muitas as que escolhem ir.

Somos criadas para matar monstros nascidos dos medos humanos. Somos treinadas para não temer o próprio medo. Ele é o nosso inimigo final. Ele é a crise que nos destrói. E nós somos as guerreiras nascidas para enfrentá-lo.

 

Naquele momento, a espada de uma de minhas subordinadas chocou-se contra a carapaça do Pesadelo que enfrentávamos. Ele era grande. Ele era forte. Mas já tínhamos vencido monstros maiores e mais fortes. A diferença desse estava nos derrotando. Ele era inteligente. E controlava um exército quase tão grande quanto o nosso.

Muitas morreram naquela noite. Mas nós vencemos. Pagando o preço, nós vencemos. A Academia estava destruída. Corpos estavam espalhados por todo o terreno, os humanos e os negros, os monstros. Eu não tinha muito tempo. Precisava avisar as outras Academias. Avisá-las do fim do mundo. Para que se preparassem.

Os nossos medos estavam vindo nos pegar.


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Júlio Emílio Braz: escritor incógnito
terça-feira 14 de janeiro de 2014 às 20:13 | Arquivado em: Reportagem

Com mais de cem livros publicados, tanto no Brasil quanto no exterior, Júlio Emílio Braz leva uma vida simples em seu apartamento em Botafogo, no Rio de Janeiro. Escritor em tempo integral, já recebeu prêmios na Alemanha, Suíça e Áustria, além do prêmio Jabuti de Escritor Revelação pelo livro Saguairu, o primeiro que publicou.

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Cosplay
sábado 14 de dezembro de 2013 às 13:42 | Arquivado em: Anime / Mangá, Reportagem

Cosplayer - Amy Whinehouse - Anime Pocket 2013
 

Cosplay é o nome que se dá à prática de se fantasiar e interpretar um personagem; um hobby que tem ganhado força entre os fãs brasileiros de cultura popular, especialmente no Rio de Janeiro e em São Paulo. Os personagens escolhidos são, geralmente, de animes (animação japonesa) e mangá (quadrinhos japoneses), mas também podem ser de filmes, séries, jogos, quadrinhos norte-americanos e até celebridades, como Amy Whinehouse. Os maiores eventos de Cosplay chegam a reunir mais de cinco mil pessoas.

“Quando eu era pequena, sempre quis me vestir dos personagens que gostava e sair por ai fingindo que era um deles. Quando eu descobri que essa possibilidade existia, pedi para os meus pais patrocinarem o meu primeiro Cosplay, como presente de aniversário, e vi que, além da possibilidade de me vestir como os meus personagens favoritos, também era muito divertido planejar as roupas, fabricar as armas e me encontrar com mais gente que curte o personagem” conta Marina Araújo, de 18 anos, estudante de Sistemas de Informação na Associação Educacional Dom Bosco, em Resende, no Rio de Janeiro.

“Você faz muitos amigos, aprende coisas novas, pode vir a ter algum retorno financeiro e tem a oportunidade de se divertir interpretando o seu personagem. O lado ruim é que você gasta bastante dinheiro, às vezes não tem o retorno que esperava e depois de um tempo começa a ficar difícil de colocar tanto Cosplay no armário” continua Marina.

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Jornada
quinta-feira 7 de novembro de 2013 às 16:21 | Arquivado em: Original, Papéis Avulsos

– Esperem por mim!

Com as asas abertas, os quatro voaram. Crianças buscando esperança, a luz no fim do túnel, o sonho sem fim. Em sua inocência, eles abandonaram suas casas e seguiram juntos na aventura que sua imaginação lhes apresentava numa bandeja de prata. Iriam matar dragões, salvar princesas e rir juntos, como os grandes amigos que eram.

Sob sol e chuva, os quatro espíritos livres seguiram seu caminho. Por vezes paravam, observando a paisagem e se perguntando se teriam esquecido algo. Nunca olhavam para trás, não era preciso, dariam a volta ao mundo e só então retornariam.

Juntos, os quatro se tornaram pássaros e alcançaram as nuvens. Pintaram os céus com os tons de seus sorrisos e seguiram o caminho que seus corações abriam. A Lua surgiu e brilhou com as estrelas deixando canções no ar por onde os quatro passavam.

Até que, perdidos, eles acordaram. E cresceram.


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