Ficou no Passado
segunda-feira 8 de dezembro de 2014 às 11:23 | Arquivado em: One-shot, Original, Papéis Avulsos

Ela estava ofegante quando parou no batente da casa velha. Olhando em volta, sabia que estava sozinha, sabia que eles não a procurariam ali. Deixou-se cair no chão e ficou se acalmando, respirando, sentindo seu coração desacelerar aos poucos, observando os arredores.

Clara era nova no bairro, ainda não estava acostumada com a disposição das ruas e tinha se afastado mais do que gostaria: não reconhecia nada ali. Naquela pequena estrada de terra, só havia árvores – que a escondiam da visão dos garotos quando a rua fazia uma curva – e a casa velha onde se encontrava. Levantando-se devagar, limpou a poeira e começou a andar pelo perímetro. Janelas quebradas, mofo, plantas daninhas se apossando das paredes. Ela podia sentir o peso dos anos emanando da construção, ouvia o sussurro de acontecimentos há muito esquecidos.

Tentou imaginar como a casa teria sido em seus dias de glória. Talvez tenha sido possuída por uma rica família, conhecida na cidade por dar grandes festas para a alta sociedade. Os carros eram dirigidos por motoristas particulares e as damas usavam suas melhores jóias e os vestidos elegantes e coloridos – costume que se perdeu quando o último herdeiro já não tinha mais interesse em cuidar da velha construção. Abandonada, sozinha… Não, não estava sozinha. Clara podia ouvir os pássaros que fizeram um ninho no sótão, ouvia o murmurinho das folhas que o vento balançava e o ranger da madeira quando a corrente de ar era mais forte. A casa podia ser antiga, anciã, mas ainda estava viva, ainda tinha história.

A menina voltara à porta de entrada que, agora, lhe parecia um convite para continuar seus devaneios. Empurrou de leve a madeira e adentrou no corredor escuro e empoeirado. Os móveis ainda estavam ali, antigos, robustos, testemunhas de uma era que não voltaria mais. Clara vasculhou a casa, sentindo o cheiro do tempo na poeira e na decomposição do lugar. Podia ouvir os ratos sob o piso e os pássaros sobre sua cabeça. Pouco havia de interessante no lugar, toda a cor parecia ter sido levada por seu último habitante, a casa estava nua, vulnerável. Ainda assim, Clara continuou a procurar, sem saber bem o que. Seus amigos já deviam ter desistido do esconde-esconde, mas ela não se importava mais com a brincadeira. Estava vivendo uma aventura que desenrolava apenas em sua própria cabeça. Estava atrás de respostas para perguntas que ainda não formulara, queria ser testemunha daquela pobre construção, seria a prova de sua existência. Não queria deixar que a casa velha se perdesse no passado.

***

Já era noite quando Clara chegou em casa. Sua mãe preparava o jantar e o pai ajudava o irmão pequeno com a lição de casa. A menina sorriu e foi tomar uma ducha.

Antes de dormir, tirou da mochila um diário empoeirado, suvenir da Casa Velha, e pos-se a ler, mergulhando na história antiga de uma amiga recente.


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Inspiração
sábado 15 de novembro de 2014 às 11:01 | Arquivado em: One-shot, Papéis Avulsos

Ela acordou com aqueles olhos a lhe encarar. Um miado, pedido de comida. Ainda zonza de sono, cambaleou até o banheiro, tropeçando em patas que a acompanharam, vigilantes, impacientes. Lavou o rosto e encarou o espelho. Novamente aqueles olhos, juízes. O caminho até a cozinha foi preenchido por garras que tentavam lhe escalar a perna. Ela riu e as pegou no colo. Filhote.

Despejou ração na tigela e se dirigiu à geladeira, iria preparar seu desjejum com os restos da janta. As taças de vinho ainda estavam sobre a mesa, os pratos largados sem jeito na pia. Inconsciente, tocou o pescoço, relembrando momentos que nunca deviam ter sido.

Enquanto comia, deixou a mente vagar, acompanhando o movimento pendular da cauda dele. Era um bom dia, as nuvens de chuva quebravam o calor insuportável dos últimos dias. Esperava que chovesse, para limpar sua consciência. Terminou de comer e puxou o laptop para si, acariciando o bichano que se estabelecera em seu colo.

Estava nas últimas páginas do seu livro quando perdeira a inspiração na noite anterior, o prazo para entrega se aproximava veloz e os personagens se recusavam a cooperar. Foi quando ele apareceu. Seu guardião, sua musa. Passaram a noite juntos: jantar casual e sexo. Ele sempre sabia quando ela precisava de um amigo. Conversaram sobre a história, trocando ideias, avançando a narrativa enquanto assumiam os papéis dos personagens: atores num jogo teatral.

O gato pulou para o chão e ela despertou dos seus devaneios. Passou às próximas horas escrevendo, confiante na direção que tomava com as palavras, construíndo uma bela teia de drama e ação. Sabia que seria um sucesso.

Ele acordou perto do meio-dia e preparou o almoço enquanto ela relia a história que criara e fazia uma edição preliminar antes de enviar a sua agente. O almoço foi como o jantar, casual e inspirador. Ambos tinham sorrisos no rosto quando ele se foi.

 

O barulho de chave na porta a despertou do programa que assistia na TV. Já escurecera e caia uma chuva leve, acompanhada de um vento frio. Não havia estrelas ou lua no céu. A mulher que entrou carregava malas e vestia um sobretudo. As duas se beijaram e foram para a cozinha, jantar.

– Conseguiu terminar a história?

– Hm-hum. Ele passou aí ontem à noite e me ajudou. Como foi de viagem?

– Bem, mas queria ter estado aqui ontem.

As duas riram.

– Esse não foi meu último livro, haverá outras oportunidades.

Depois do jantar, as duas foram de mãos dadas até o quarto, tirando as alianças e as roupas antes de deitar.


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Delírio
quarta-feira 29 de outubro de 2014 às 10:39 | Arquivado em: One-shot, Papéis Avulsos

Eu vivo num mundo de sensações. Cores, sons, memória. Tudo se confunde, se mistura. Eu existo num furacão, perdida em mim mesma, buscando, sempre buscando. Uma viagem fantástica, sem fim… A vida, nascer, morrer.

Vivo numa ampulheta. A areia passa por mim, zombeteira. Um sonho, delírio de realidade. O mundo está realmente lá? O que é o tempo, se não uma invenção? Medida de valor dos momentos. Eu inventei o mundo e me perdi nele. E o tempo zomba de mim.

Vejo rostos, risos, lágrimas… Não sinto nada. Perdida em mim mesma, girando na encruzilhada. Para onde devo ir? Só eu posso saber e ainda assim…

Um passo a esmo, caminho pela estrada de terra, sentido o cheiro de chuva, vendo o céu se tingir de rosa enquanto o sol acorda. O começo.

Meu fim.

 

Eu sou delírio irreal do universo, sem importância, um fragmento. Eu sou o centro do mundo, egoísta, esnobe. Eu sou conflito, tempestade, batalha constante.

E caminho em direção ao vazio.


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Sobre o universo, a vida e tudo o mais
segunda-feira 29 de setembro de 2014 às 16:33 | Arquivado em: Blog, Desabafo, Dia-a-dia

Oi gente.

Eu sei, tenho sido uma dona relapsa e não atualizo isso aqui como deveria. Pra ser bem sincera, eu não escrevo com tanta frequência quanto gostaria. É por isso que tenho mantido o ritmo de 1 atualização por mês… sem dia fixo. Mas eu quero mudar isso. Quero escrever mais, fazer mais coisas.

Não sei quantos de vocês perceberam que eu coloquei fotos minhas no Facebook. Foi uma das ideias que eu tive – atualizar o a fanpage toda semana com fotos e atualizar o blog com textos uma vez por mês. Isso não deu muito certo. Eu não estou satisfeita.

Eu nunca estou satisfeita. E acabo não fazendo nada.

Bem, eu vou pensar em algo. Tenho alguns projetos em mente, mas eles são todos a longo prazo, então não vou comentar sobre isso aqui.

A minha vida tem estado um pouco frenética – eu estou na reta final da minha faculdade, é fazer a monografia, defender e ser feliz! Além disso, quero ingressar no mestrado direto depois da minha formatura. Vocês podem imaginar a correria.

Estou trabalhando num tema novo pro blog, ele deve entrar no ar mês que vem!

E era basicamente isso que eu tinha pra falar.

Até mais!


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Tempestade
quarta-feira 27 de agosto de 2014 às 16:29 | Arquivado em: One-shot, Original, Papéis Avulsos

Sarye estava encolhida na cama, usando o lençol para se proteger do escuro. O vento uivava, assobiando por entre as frestas da madeira. A chuva forte inundava o lugar com o cheiro de terra molhada. A menina sabia que estava sozinha em casa, Ikne tinha saído para caçar e só voltaria com comida. Isso podia demorar dias. Essas viagens não eram incomuns, mas sempre tinha Zymne para lhe fazer companhia. Hoje, não havia ninguém.

Um barulho forte a fez soltar um grito de susto e medo e a porta do quarto, agora aberta, bateu com força ao ser empurrada pelo vento. E se eles estivessem lá fora? Não havia ninguém para protegê-la ali. O breu era total, Sarye não enxergava nada além dos joelhos que mantinha grudados ao peito. Outra porta bateu ao longe… Se fosse a porta de entrada, eles poderiam entrar. Engoliu em seco enquanto juntava coragem para sair da cama.

Um pé depois o outro. Era simples, fácil. O vento balançava as árvores e a terra molhada abafaria o som de passos, se alguém estivesse por perto. Um pé depois o outro. Sarye já estava na sala e podia sentir o ar gelado e as gotas de chuva que entravam pela porta aberta. Um pé depois do outro. Um trovão caiu próximo, ensurdecedor. O clarão iluminou a noite e a menina começou a chorar. Correu o mais rápido que seus pézinhos permitiam para fechar a porta.

 

Ikne chegou pela manhã e encontrou a pequena dormindo contra a porta.


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