Um Conto de Fadas
sábado 21 de junho de 2014 às 12:19 | Arquivado em: Original, Papéis Avulsos

 Nunca esperei que recuperar o que me foi tirado fosse uma tarefa simples, fácil. Sabia que exigiria um esforço sobrehumano, mas eu sou sobrehumana… Não estava preparada para a jornada de autoconhecimento que me esperava, espreitando pelas sombras. Iria enfrentar a mim mesa, provavelmente num embate mortal.

Caitlyn era uma modelo famosa, cercada por bajuladores e intrigas. Ela se sentia confortável naquele mundo superficial, onde as aparências escondem cobras esperando para dar o bote. Era o seu habitat natural e teria sido o meu.

Minha vida, meu nome e existência enquanto ser humano agora pertenciam a um ser tão alienígena quanto eu. E ainda assim, ela era parte de mim. Adimitir isso foi difícil, levou mais tempo do que seria sensato. Eu decorei sua rotina e ela olhava por sob o ombro, nervosa.

A primeira vez que me aproximei, ela esperava por mim. Quis saber se eu ia matá-la, mas ela não queria morrer. Ela chorou e implorou e foi falso, eu sabia disso, ela manipulava todos. Mas ainda assim, era meu rosto chorando, a minha voz implorando. Minha alma ansiava por liberdade. E eu fui embora para nunca mais voltar.

Quem efetivamente devolveu minha vida foi um amigo que me devia um favor. Forjando um acidente de carro, ele a sequestrou e matou. E eu recebi minha vida de volta ao entrar nos destroços.

Viver como caitlyn era estranhamente familiar e recompensador. Ela ganhara fama para mim, mas eu era melhor que ela nisso, mais bela e carismática. O que eu precisei aprender, e rápido, foi a manipular as pessoas com frieza e crueldade para não ser derrubada por uma realidade que nunca foi minha. E eu percebi que por mais que aquela vida fosse minha por direito, ela sempre seria mais da Caitlyn que eu destrui.

Enquanto tentava balancear minha existência dúbia e sobrenatural com minha existência passada e humana, eu visitei minha filha. Minha agente foi contra, meu advogado também; meu coração ansiava por aquele momento e meus amigos apoiaram relutantes a minha decisão.

Meu ex-marido, e é estranho se descobrir divorciada quando sua mente ainda está em meio à uma paixão interrompida, tentando se convencer de que sabia o que fazer, ele era uma figura que me causava ansiedade. Foi um encontro desconfortável.

A humanidade que me fora arrancada tentava retomar seu canto em meu ser e era bloqueada pela minha nova natureza e, por isso, sei que ele percebeu que eu não era aquela com quem ele casou e de quem ele se separou.

Eu precisava convencê-lo a confiar em mim. Não fazia questão de ter seu amor de volta, eu sabia que seria impossível retomar o passado, nós dois mudamos com o tempo. Então eu soube que precisava dizer a verdade, mostrar a ele o que eu havia me tornado e encarar lembranças que assombravam meus sonhos.

Em uma promessa que me foi ensinada pelos meus iguais, eu o envolvi e mostrei a essência sobrenatural que exalava de mim. Era sutil ainda, mas perceptível mesmo assim. Ele cambaleou e me deixou entrar. Eu passei o dia com meu bebê, Evelyn, a lembrança que me trouxera de volta do pesadêlo mais lindo e enebriante que eu jamais teria novamente.


Comentários

Tags:


Empty Heart
terça-feira 27 de maio de 2014 às 18:32 | Arquivado em: Original, Papéis Avulsos

She felt the rain on her skin
It was cold, freezing
she felt alive

 

The trees around her
moved with the wind
and she was going to
meet the moon

 

The sky was as infinite
as her dreams and she ran
chasing the pale light
of the stars

 

“Who am I?”
echoed in her empty
heart


1 comentário

Tags:


Santuário
sexta-feira 25 de abril de 2014 às 15:28 | Arquivado em: Original, Papéis Avulsos

Depois do terremoto, com nossa cidade destruída, os soldados nos guiaram pelo deserto com a promessa de um lugar seguro. O reino inteiro estava em estado de alerta e muitas vidas foram perdidas. Boatos de que a princesa, nossa sacerdotisa mais poderosa, tinha perdido sua habilidade de nos proteger corriam soltos, carregados pelas ninfas do vento como brinquedos.

O caminho que nós, refugiados, tínhamos que percorrer era duro e solitário, mesmo que o grupo fosse composto por mais de quinhentas pessoas. As areias finas dificultavam a locomoção e os ventos lançavam impurezas contra nossos olhos. E o Sol. O grande rei do céu nos castigava com seu calor constante. Já estávamos nessa viagem há meses. Começava a duvidar da existência desse lugar seguro. Continuamos andando. E a vida foi passando. Não sentimos outro tremor e nem encontramos outro sinal de civilização enquanto cruzávamos aquelas areias traiçoeiras.

Eu não via sentindo em continuar a viagem, simplesmente não parecia que um dia ela iria acabar. Minha família era a única coisa que me prendia aquele grupo de desesperados. Minha mãe era uma curandeira experiente e queria que eu aprendesse o ofício para ajudá-la. Estava sempre me chamando para participar quando ia realizar algum serviço. Acho que era porque eu ainda não tinha demonstrado interesse em nada específico. Foi por causa dela que tivemos que abandonar nossa caverna na floresta. O regente da cidade a havia convocado para cuidar dos feridos e eu sabia que nunca mais veria meu lar. Sim, nós morávamos numa caverna. Mamãe queria ficar em contato com a Natureza e dizia que Ela nos daria tudo que precisássemos. Minhas irmãs gostavam, mas eu sempre olhei curiosa pra vida atribulada da cidade. Agora, estou feliz por não estar entre as construções de pedra e argila quando a terra tremeu.

Logo, a jornada se tornou nossa realidade. A esperança desapareceu do rosto dos idosos e as crianças esqueceram que, um dia, o deserto era apenas um sonho distante. Sobrevivíamos graças à magia dos feiticeiros da guarda, que nos proporcionavam comida e água. E eu me perguntava se alguém ali lembrava para onde estávamos indo. É verdade que muitos morreram no caminho, mas que diferença isso faz para um grupo que não tem pra onde voltar e não sabe pra onde ir?

Mamãe se envolveu com um mago e se afastou de mim. Minhas irmãs também se arranjaram com alguém. E eu fiquei sozinha. Foi quando eu percebi a beleza daquelas terras inóspitas. Como a vermelhidão da terra contrastava com o límpido azul do céu. Tão maravilhoso. Lembrei da floresta e percebi que o verde e a umidade não eram para mim. E percebi que não queria chegar a lugar nenhum. Aquele era o meu lar. A solidão e o silêncio daquelas cores. Fui enfeitiçada pelo deserto, como um marinheiro é atraído pelo canto da sereia. E me afastei do grupo.

Não sei o que eu estava pensando. Certamente não poderia sobreviver sem meios de conseguir água. A fome seria o menor dos meus problemas se o líquido da vida não fosse ingerido antes que o Sol me roubasse as forças. Meu cérebro considerou tudo isso e, por um momento, eu olhei pra trás. E ele sorriu pra mim. Um garoto da minha idade. De olhos perfurantes e irônicos. Não vi nada além daqueles olhos, pois ele se cobria com um pano preto e pesado. Balançou a cabeça indicando para eu seguir em frente e me acompanhou até um oásis que eu não teria encontrado sozinha.

Não perguntei quem ele era e não conversamos. Não era necessário. Eu sabia o que ele era e ele sabia porque eu estava ali. Saímos do oásis ao anoitecer e apenas caminhamos, mas sei que muitos quilômetros percorremos no pouco espaço de tempo até o amanhecer. Os raios do Sol tocaram o horizonte, delineando nosso destino. Uma cordilheira se levantou para nos dar as boas-vindas. Por um momento, me imaginei uma rainha que vê o seu castelo pela primeira vez. Quando nos aproximamos, uma caverna se abria, nos convidando a entrar. Meu corpo se moveu sozinho e eu corri. As ninfas do vento me trouxeram as primeiras palavras ditas pelo meu companheiro e eu paguei com um sorriso. Estava certa de que nunca mais me preocuparia novamente. Achara meu santuário.

– Eu sou o Deserto.


Comentários

Tags:


Ponto de Vista
terça-feira 11 de março de 2014 às 11:57 | Arquivado em: Original, Papéis Avulsos

Asas brancas. Olhos dourados como o sol. Aquela porcelana sempre me encarava quando eu descia para almoçar. Era a coruja favorita da mamãe e o papai a guardava como um tesouro. Ninguém nunca tocou nela, estava sempre lá, embaixo da escada, como uma guardiã. Minha irmãzinha tinha chamado-a de Edwiges. Quando a mamãe era viva, ela costumava contar histórias sobre como as corujas eram seres mágicos e inteligentes que protegem a imaginação das crianças. Eu cresci ouvindo essas histórias. Nunca pensei que elas significariam tanto para mim.

À noite, papai nos colocou na cama e apagou a luz. Virei-me para o lado e tentei adormecer. Estava quase pegando no sono, quando senti uma leve bicada em minhas costas. Abri os olhos e voltei ao normal para ver o que estava acontecendo. Tomei um susto. Edwiges estava viva! E me bicava para chamar minha atenção. Sentei na cama e observei. A coruja branca foi em direção à janela e, com a asa, indicou o fecho. Ela queria que eu abrisse, queria voar.

Levantei e fiz o que ela pedia. Edwiges pulou para fora e planou por alguns minutos, feliz por estar livre. Fiquei apenas admirando-a, branca contra a negritude do céu noturno. Depois ela voltou e pousou no meu ombro. Suas garras afiadas não me feriram por mágica. Fiz menção de entrar e fechar a janela, ela me parou com um pio e voltou a pular para a noite, só que dessa vez, me chamando.

– Eu não sei voar. – expliquei, quase rindo, mas ela me olhou como se eu fosse um covarde, ou alguém de outro mundo, parecia perguntar se eu não confiava nela. Engoli em seco. Ela realmente esperava que eu voasse a seu lado. Por um segundo pensei em me beliscar para acordar desse sonho, mas minha mente me parou. E se não fosse sonho?

Algo me dizia que, sonho ou não, eu teria que, no mínimo, pular da janela. Respirei fundo e me lancei ao vazio, de olhos fechados, esperando o fim. Mas ele não veio. Eu realmente estava planando há 2 metros acima do chão!

Divertido, pensei. Fiquei voando a esmo, tentado pegar o jeito da coisa. Edwiges sempre ao meu lado, paciente. Quando demonstrei estar terminado meu pequeno aquecimento, nós dois saímos voando em direção à Lua.

Não pude deixar de sentir que alguém me observava. Às vezes, pelo canto do olho, tinha a impressão de ver alguém voando ao meu lado. Mas eu olhava para Edwiges e ela parecia sorrir, aquilo era tranquilizador.

Depois do que pareceram horas, pousamos numa cratera da Lua. Eu não entendi como a gente tinha chegado lá nem como eu respirava, mas ali estávamos. Edwiges pousou e pareceu esperar. O tempo foi passando… Eventualmente, eu cansei de ficar em pé e sentei no chão. A presença que eu sentira enquanto voava não tinha sumido, só… Não estava mais incomodando. Pareceu para mim que nós ficamos horas ali, sem nada para fazer e sem nada acontecer.

Levantei no susto quando a presença ficou mais intensa. Olhei em volta mas nada tinha mudado.

– Muito bom, Edwiges! – ouvi a voz de uma mulher, atrás de mim. Quando me virei, minha boca se abriu com o susto. De repente, eu estava chorando. Num impulso, corri e abracei a tal mulher.

– Mãe!

– Quanto tempo! – ela respondeu, retribuindo meu abraço e parando de fazer carinho em Edwiges. Depois, ela perguntou sobre mim, sobre papai e a mana. Ficamos horas conversando sobre o que aconteceu no tempo que tinha passado desde que… desde que ela se fora. – É muito bom conversar com você, coração, mas você não quer saber porque está aqui?

Só então eu me toquei que havia um motivo para tudo aquilo. Edwiges não tinha me levado até ali só para que eu revesse a minha mãe, tinha algo mais.

– Eu tenho observado você, através da Edwiges, e eu fiquei preocupada – ela começou – Você tem se fechado do mundo desde a minha morte. Quero que você entenda que o mundo não acabou. Você precisa abrir seu coração para as oportunidades que a vida te mostra. – com um gesto da mão, ela fez aparecer uma “tela” a nossa frente onde imagens começaram a passar. Eu vi a minha turma da escola, depois eu vi aquela pessoa especial para mim. Percebi que eu estava afastando meus amigos. Mamãe também me mostrou outras histórias. Me mostrou a vida de um menino, mostrou como ele tinha perdido os pais, como ele cresceu criado pelos tios que o odiavam, como ele fez amigos na escola e como ele lutou contra o assassino de seus pais, mostrou a magia que tinha nascido no coração de milhares por causa daquele garoto, mostrou a esperança. Mostrou que o mundo não é uma conta matemática que a gente sempre pode prever o resultado e sim uma loucura como tem que ser, porque as pessoas tem sentimentos que expressam de formas diferentes. Com tanta diferença, é impossível se dar bem com todo mundo, mas é bem possível enxergar aqueles que nos aceitam como somos.

– Não deixe que um acontecimento triste tire a luz dos momentos felizes que ainda podem vir. – minha mãe falou, se despedindo e beijando minha testa. Meus olhos fecharam sozinhos e eu senti meu corpo ficar cada vez mais pesado e cair.
Acordei com os olhos cheios de lágrima. E com uma pena branca em cima do cobertor.


1 comentário

Tags:


Medo
domingo 16 de fevereiro de 2014 às 18:16 | Arquivado em: Original, Papéis Avulsos

Na batalha, a adrenalina clareia a visão e aguça os ouvidos. O tempo parece desacelerar e nada mais importa a não ser atacar e tentar não morrer. Principalmente tentar não morrer. Eu fora treinada por anos para aquele momento. Anos numa academia aprendendo a lutar. Todas as minhas amigas passaram pelo mesmo processo. Éramos o exército perfeito para aquela crise.

A humanidade sempre esteve perdida. E sempre temeu esse futuro. Nós representávamos a esperança invisível. Nosso pequeno exército era secreto, não podia ser mencionado fora de si mesmo. Aqueles escolhidos para se tornar um de nós eram arrancados de suas famílias aos 5 anos de idade, que é quando o poder normalmente se manifesta. Os pais sempre se desesperam no início. E algumas crianças, depois de iniciado o treinamento, recebem permissão para visitar suas antigas casas durante a noite. Não são muitas as que escolhem ir.

Somos criadas para matar monstros nascidos dos medos humanos. Somos treinadas para não temer o próprio medo. Ele é o nosso inimigo final. Ele é a crise que nos destrói. E nós somos as guerreiras nascidas para enfrentá-lo.

 

Naquele momento, a espada de uma de minhas subordinadas chocou-se contra a carapaça do Pesadelo que enfrentávamos. Ele era grande. Ele era forte. Mas já tínhamos vencido monstros maiores e mais fortes. A diferença desse estava nos derrotando. Ele era inteligente. E controlava um exército quase tão grande quanto o nosso.

Muitas morreram naquela noite. Mas nós vencemos. Pagando o preço, nós vencemos. A Academia estava destruída. Corpos estavam espalhados por todo o terreno, os humanos e os negros, os monstros. Eu não tinha muito tempo. Precisava avisar as outras Academias. Avisá-las do fim do mundo. Para que se preparassem.

Os nossos medos estavam vindo nos pegar.


1 comentário

Tags: